
Intervenção do Coordenador Nacional Paulo Batista
projecto: “Gerir para inovar os serviços prisionais (PGISP)”
Voluntários envolvidos:
• Lénia Pereira
• Ana Rita Almeida
• Mariana Luzio
• Natália Mourato
• Telma Carvalho
• Nádia Veiga
• Susana Lopes
• Ana Alves
• Soraia Abdulremane
• Joana Gomes
• Anabela Marçalo
• Lia Lourenço
• Susana Santos
• Ester Gonçalves
• Catarina Jerónimo
• Adriana Azevedo
• Catarina Duarte
• Daniela Bessa
• Hugo Almeida
• Nuno Caixinha
• Joseja Freixo
• Sara Antunes
• Ana Rita Ramos
• Ricardo Mata
• Cristiana Costa
• Alberto Andrade
• Ana Carvalho
• Joana Henrriques
• Cátia trindade
• Mónica Ferreira
(voluntários de desporto)
• Isabel Marçal
• Debora Cavaco
• Marta Monteiro
• Miguel
• Francisco
• César Silva
Antes de mais convém dizer que o projecto (Gerir para inovar os serviços prisionais) foi encarado com muito bom agrado e entusiasmo por todos os que foram contactados, porque ambos acreditamos que vale a pena acreditar em projectos como este, que vale a pena ter a coragem de abraçar iniciativas destas e que valham realmente a pena, caso contrário não seria abraçado por estes voluntários, e há que salientar que é um número significativo.
Há que referir que o nosso objectivo tal como nos foi proposto será a de melhorar a ressocialização dos reclusos, abrir a prisão à sociedade e fazer crer a esta mesma sociedade que a vida não gira somente á nossa volta, e como tudo nessa vida possui dois lados, mas que em ambos os lados (positivo ou negativo) temos que acreditar que é possível existir mudança interior, e que ainda há esperança para alguns reclusos.
No entanto viver da esperança pode gerar resultados negativos e improdutivos, mas a vida é isso mesmo, corrermos riscos. Tal como este projecto que pode também não ter o resultado esperado, mas a luta será para que isso não aconteça.
E se há um sentimento que alimenta o lado positivo deste projecto, é sem dúvida a esperança.
É ter esperança que um dia alguns dos reclusos estejam eles onde estiverem que acreditem que podem transformar as suas vidas, encontrar as suas saídas, outras pessoas para amar e serem amados, outros modos de lidar com as suas emoções e com as suas questões, curar as feridas que o passado lhes deixou, ter alegria apesar das diversidades e perdas, concretizar seus ideais, e aceitarem e assumirem que a igualdade de oportunidades não é a mesma para todos.
Que possam dar sentido à existência e ao futuro, como um caminho onde será possível superar a infelicidade do passado.
No entanto a esperança não deve ser uma alienação da realidade, pois isso lhes traria amargura e decepções, mais cedo ou mais tarde.
É irónico, mas, às vezes, a demasiada esperança em coisas ou em pessoas, poderá fazer com que acabem perdendo a sua esperança, devido às frustrações da vida.
Por isso, também nós voluntários, queremos entre os reclusos vincular a “esperança” a sentimentos como paciência e prudência, fazendo silêncio para aprender a perceber o que poderemos mudar, para aceitarmos o que não podemos mudar e esperar até que o tempo nos mostre a diferença entra as coisas.
Num mundo em que o ter supera, muitas vezes, o ser, o sentimento de generosidade aparece contaminado por enfoques de doações materiais e estas, embora certamente ajudem, não alimenta a alma humana.
Reflectindo sobre generosidade, lembrei-me do texto “O último discurso” de Charles Chaplin, em que ele diz:
“Sinto muito, mas não pretendo ser um imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar quem quer que seja. Gostaria de ajudar, se possível, judeus, o gentio, negros, brancos.”
Todos nós desejamos ajudar os outros. Os seres humanos são assim.
Mas até que ponto temos essa capacidade?
O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porem nos extraviamos.
A cobiça envenenou a alma do homem, levantou no mundo as muralhas do ódio, e tem nos feito marchar a passo de ganso para a miséria.
Criamos a época de velocidade, mas nos sentimos enclausurados dentro dela.
A máquina, que produz abundância, tem-nos deixado em penúria, os nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; a nossa inteligência, cruéis.
Pensamos em demasia e sentimos bem pouco.
Mais do que máquinas, precisamos de humanidade, mais do que inteligência, precisamos de afeição e doçura.
Sem essas duas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.
As nossas idas aos centros prisionais não vão de encontro a mudarmos a sua realidade, mas nossas palavras poderão ser significativas no sentido de que eles possam entender de que não adianta lamentarem o passado que jamais retornará, nem temer o futuro que ainda não existe.
E que a única vida real é aquela que se vive no agora, portanto têm que procurar fazer do seu dia-a-dia melhor, viver o presente bem vivido, o melhor que puderem e isso quer dizer aceitar os limites impostos pela realidade e ir atrás do que se quer, sem esquecer as barreiras existentes.
Ao longo deste tempo de reflexão entre os voluntários, fizeram-se algumas reuniões, onde foram debatidas algumas das estratégias a utilizar, uma planificação pormenorizada deste projecto para que em Setembro de 2008, se recomece o projecto e para que este seja um processo continuo e viável.
Para tal e para entendermos o grau deste projecto recorremos a alguns manuais, principalmente de sociologia, onde aprofundamos conhecimentos sobre diversos conceitos demasiado importantes para a natureza deste projecto, que serão apresentados pormenorizadamente assim que estejam concluídos, tais como: comportamentos desviantes, género e crime, crime e padrões, anomia, desvio, criminologia, ambições e recompensas, grupos subculturais, teoria da rotulagem, delinquência, teoria do controlo social (está ligada à influente abordagem policial conhecida como a teoria dos vidros partidos), estatísticas criminais, Estratégias de redução do crime na sociedade de risco, policiamento, as vítimas e os predadores do crime, tráfico de droga, o crime de colarinho branco, crime organizado, o “cibercrime”, crimes do futuro, exclusão social, o trabalho e a vida económica, teorias da escolarização e desigualdade, educação e etnicidade, métodos de investigação em sociologia, entre outros.
O que pretendemos fazer?
Voltando directamente ao nosso projecto pretendemos contar com um vasto leque de pessoas e organizações, queremos criar laços de confiança entre os recluso e os voluntários, para isso iremos recorrer a jogos interactivos com dinâmicas de grupo, momentos de relaxamento para que assim se diminuam os níveis de ansiedade e ensinar a lidar com situações ansiogênicas.
Queremos que sejam sugeridos temas dos seus interesses para possíveis conferências, aplicação de questionários relativamente à sua área de interesse, experiência profissional, habilitações literárias, expectativas, receios e motivações, suporte familiar, será que existe?
Pretendemos também que alguém responsável pelo IEFP da Covilhã/ Castelo Branco informe os reclusos sobre possíveis oportunidades de emprego, e quais as probabilidades de os colocarem no mundo do trabalho, se é que existe essa oportunidade, se possível dar também uma pequena palestra nos estabelecimentos prisionais sobre estas temáticas, entrar em contacto com o IAPMAI, para um possível curso de empreendorismo; e porque não dar-lhes uma formação de 1º socorros? Dada pela Cruz Vermelha como é evidente. Seria uma mais-valia para eles quando saíssem.
Se conseguirmos que dez reclusos tenham sorte no exterior, já ficamos muito felizes. Muitos reclusos cresceram sem nenhuma orientação. Tenho a certeza que, se criados, noutro meio, seriam diferentes.
Os reclusos sorriem-nos. Acho que ficaram felizes com as nossas curtas visitas mas que esperamos e pretendemos prolongar, garanto.
Nas salas de aulas viu-se em muitos reclusos o encanto de estarem perante os livros, oportunidade essa que cá fora muitos não teriam.
No entanto com o fim da pena, por vezes, interrompe-se os ciclos. Não vão poder seguir, porque quando saírem têm de trabalhar. Também acredito que há os que não desistem de ir mais longe. Quando tive a oportunidade de falar por breves instantes com um recluso com uma prenuncia que não era a minha, garantiu com um sorriso e um brilho nos olhos ter gostado muito de "aprender a ler e escrever", algo que lhe fazia "muita falta".
"Quero continuar a estudar para compreender melhor o que se passa à minha volta e quando sair quero completar o 9º ano", assegura.
Queremos implementar, caso não haja, actividades extracurriculares mesmo que o número de inscritos seja flutuante. Fazer um ateliê de pintura, que, resultem em exposições, aqui eles vão poder expressar-se.
Gostaríamos de implementar também as aulas de música, caso assim ambas as partes o entendam, se acordarmos ser rentável e benéfico para eles, o possível e impossível será feito. Acredito que muitos, sem serem músicos, conseguem aprender a tocar razoavelmente, sobretudo a guitarra, todos desejamos saber tocar guitarra!
Para finalizar queria partilhar com vocês algo que ficou no coração e na memória:
É notório e impressionante ver que os alunos e professores vivem uma relação de cumplicidade, tal como directora e reclusos.
Palavras citadas por um recluso:
“Lá fora não damos valor à liberdade que temos…aqui não temos essa liberdade….”
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